30 dezembro 2025

Executivos preveem ainda mais oportunidades de alocação, principalmente para fundos NPL; retorno deve surgir a médio prazo.
Se por um lado o cenário econômico difícil, com altas taxas de juros, tem gerado endividamento da Pessoa Física, patamares elevados de inadimplência de empresas (especialmente as pequenas e micro) e de Recuperações Judiciais de produtores rurais, e tornado a vida de empresários mais complicada, por outro, players do mercado que atuam com distressed assets, os ativos estressados, estão surfando uma boa onda diante de amplas opções para colocar no portfólio. A perspectiva é que o cenário siga desafiador para a economia, mas positivo para os “fundos abutres”, que devem aproveitar as oportunidades de alocação. Mesmo com o corte de juros, há um período de transição até que a queda seja repassada para a economia real, enquanto empresas e produtores seguem alavancados.
A inadimplência, que pressiona o crédito e afeta diretamente o faturamento das empresas, atingiu níveis recordes. Já os pedidos de recuperação judicial (RJ) no agronegócio dispararam no terceiro trimestre 147,2% na comparação com igual período de 2024, segundo a Serasa Experian.
O Brasil apresenta a segunda maior taxa de juros real do mundo, com uma Selic de 15% ao ano em patamares dispares, não vistos há mais de uma década no país, e com isso, uma alta da inadimplência. Nesses momentos de crise, os fundos distressed, também conhecidos como fundos abutres, acabam se sobressaindo.
“O que chamamos de NPL (créditos corporativos inadimplidos), de recuperação judicial e falência, tem um recorde agora. Esse cenário macro é muito importante. No micro, há uma grande dependência da sociedade empresária de financiamento, com a alta de inadimplência e com o inflamento dos PDDs dos bancos, acaba gerando oportunidade para boutiques distressed como a nossa, e para fundos abutres acabarem atuando de forma bem contumaz nessa crise”, diz Matheus Matos, sócio e diretor Jurídico da MA7 negócios, citando ainda oportunidades nos casos de legal claim e de litigation finance, visto que os credores na “briga judicial” querem dar fim ao imbróglio. “Ele precisa, de fato, de uma viabilidade econômica, e o único ativo que, naquele momento, ele detém, é sua ação judicial. Ele precisa monetizar isso.”
Matos cita ainda o recorde de PDD (Provisão para Devedores Duvidosos) em bancos como o Banco do Brasil. O executivo aponta que muitos deles estão com recordes desse provisionamento de devedor duvidoso. “O banco precisa vender esses créditos, e os fundos de distressed acabam comprando isso. O banco precisando desovar, você consegue ter um bom deságio na compra desses créditos”, diz. Para ele, inclusive, a última década foi a janela de maior oportunidade para distressed assets no país, boa onda que a casa tem aproveitado.
Para a IOX, gestora que atua com distressed assets, estão surgindo oportunidades de ativos para incluir no portfólio “toda hora”, especialmente do agro. “Tem empresa pequena, mas essas, são poucos os fundos NPL que olham. Como está aparecendo muita coisa grande também, geralmente damos mais atenção para o grande”, conta Richard Ionescu, CEO do Grupo IOX.
Na Strategi, os executivos destacaram, no primeiro semestre de 2025, um aumento grande de pedidos de recuperação judicial, principalmente de produtores rurais ligados a soja, café e gado. No entanto, como o portfólio da casa é diverso, não há hiper exposição a nenhum desses cenários.
“Há uma procura muito grande, tanto em soja quanto gado, mas esses setores respondem de formas um pouco diferentes, porque enquanto o do gado é, normalmente, asset-light, não tem grandes fazendas, normalmente arrendadas, tornando a operação muito mais complexa [no sentido de garantias a serem fornecidas], é necessário estudar de forma muito mais aprofundada a situação antes de fazer qualquer tipo de investimento. O mercado, por exemplo, dos produtores de soja já traz uma flexibilidade maior”, conta André Vasconcellos, sócio da Strategi.
Não há preferências por setores em nenhuma das casas, mas há quem se destaque devido ao momento. Na MA7, dentro da recuperação judicial, o DIP Financing e o Exit Financing, para o produtor rural, especialmente, mas também para recuperandas e sociedades e empresárias, além de NPLs, créditos inadimplidos de banco, são os maiores setores visto a sua oferta. A IOX também tem atuado com NPLs, compra precatórios, dívida trabalhista em falências e recuperações judiciais, e inventários que “estão meio enrolados”.
Embora o cenário seja de muitas opções para colocar na carteira, não significa que todas as oportunidades de alocação sejam boas para os fundos. Aqueles que navegam pelo cenário de ativos estressados alocam com alguma cautela.
“Temos priorizado o que é retorno rápido, ou algo que vamos demorar a receber, mas comprando muito barato e sabendo que vamos receber”, aponta Ionescu.
Para a Strategi, a tática é priorizar empresas nas quais conseguem enxergar capacidade de repagamento. “Somos muito bons no litígio. Parte do que talvez seja necessário no segmento, e sempre levamos isso em consideração para colocar dinheiro, principalmente nessas operações estruturadas, é que a empresa tenha, de fato, um plano de recuperação. Mas aqui, a casa é meio agnóstica a setor”, conta Vasconcellos.
O CEO da IOX vê 2026 como “maravilhoso” para NPL. Ele cita, inclusive, que o cenário está bem complexo, até mesmo para os bancos, favorecendo fundos distressed da tese. “Para bons players nunca faltarão oportunidades. Para maus players terão oportunidades, mas esses não conseguirão navegar. Além disso, mesmo com uma baixa de taxa de juros, as oportunidades continuarão a surgir, porque ela não abaixará do dia para a noite. Vai continuar nesses patamares de dois dígitos”, opina Matos, da MA7.
Fonte: https://capitalaberto.com.br/gestao/players-de-distressed-surfam-boa-onda-em-meio-a-inadimplencia-e-rjs-2/
