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2026 Testa a Sobrevivência Econômica do Produtor Rural, Alerta Roberto Rodrigues

07 janeiro 2026

Juros elevados, custos pressionados e incertezas externas comprimem a renda no campo; uma das grandes mentes do agro defende acordos comerciais, tecnologia e cooperativismo como eixos de estabilidade do agro.

O agronegócio brasileiro entra em 2026 sob um paradoxo incômodo. A produção segue robusta, com capacidade de garantir abastecimento interno e sustentar exportações, mas a renda do produtor rural se estreita a um ponto que ameaça a própria continuidade do ciclo produtivo.

A leitura é de Roberto Rodrigues, professor emérito da Fundação Getúlio Vargas e Embaixador Especial da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês) para o Cooperativismo.

Segundo Rodrigues, que aos 83 anos continua sendo uma das mentes mais influentes do agro brasileiro, o ano se estrutura sobre uma combinação adversa rara. Os custos de produção avançaram, os preços internacionais recuaram em dólar e o custo financeiro atingiu patamares incompatíveis com a lógica da atividade agrícola.

“Com juros ao redor de 20% ao ano, a matemática não fecha. Mesmo quem alcança algo próximo de 15% de lucro operacional termina o ciclo no prejuízo”, afirma.

Do ponto de vista macroeconômico, a fotografia é favorável. A safra volumosa ajuda a conter a inflação, garante oferta de alimentos e contribui para o desempenho externo do país.

Segundo dados mais recentes da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), de dezembro, a safra 2025/2026 está prevista em 354,4 milhões de toneladas de grãos, cereais e fibras naturais, o que representa um leve acréscimo de 0,6% ante a colheita anterior, estimada em 352,2 milhões de toneladas.

No nível do produtor, porém, o efeito é inverso. Produzir mais sem gerar renda, observa Rodrigues, corrói a base do sistema. Se esse quadro persistir, a reação tende a aparecer em dois ou três anos, com redução de tecnologia, corte de investimentos e retração de área plantada.

Produtividade vira linha divisória entre lucro e prejuízo

Diego Sene/Getty ImagesProdutor rural acompanhando a colheita no campo

Em um ambiente de margens comprimidas, a produtividade se transforma no divisor de águas entre permanecer no azul ou operar no vermelho. O problema é que esse fator depende de variáveis que fogem ao controle do produtor, como clima, acesso a crédito e qualidade dos insumos.

“Se a produtividade ficar abaixo da média nacional, o resultado financeiro é negativo. Para grãos, 2026 é particularmente duro”, diz.

Alguns segmentos escapam parcialmente da pressão. O café atravessa um período de recomposição após anos de seca e geadas, ainda com preços acima da média histórica. Já a pecuária, que vinha se beneficiando do custo menor dos grãos, enfrenta um choque externo relevante.

A decisão da China de aplicar tarifa de 55% sobre volumes de carne bovina acima da cota de 1,7 milhão de toneladas altera a equação de um mercado no qual cerca de 70% da carne brasileira entrava com tarifas reduzidas. O impacto tende a ser direto sobre preços e margens.

Tecnologia perde eficiência como amortecedor do ciclo

Mesmo a tecnologia, tradicional amortecedor dos ciclos negativos do agro, apresenta fissuras. Rodrigues chama atenção para ajustes feitos pela indústria de fertilizantes, que reduziram a solubilidade de alguns produtos para baratear preços. A economia aparente, ressalta, cobra seu custo adiante.

“O insumo fica mais barato, mas entrega menos à planta. Isso aparece na produtividade”, afirma.

O cenário doméstico adiciona outro elemento de pressão. Em ano eleitoral, a tendência histórica é de políticas mais sensíveis ao consumidor urbano do que ao produtor rural. Com o custo financeiro elevado, o campo fica mais exposto justamente quando a necessidade de previsibilidade é maior.

Acordo com a Europa perde peso estratégico

No front externo, a frustração se concentra no acordo Mercosul-União Europeia. Rodrigues, que acompanhou o tema por mais de duas décadas, avalia que as salvaguardas impostas por países como França e Itália esvaziaram o interesse estratégico do agronegócio brasileiro.

“Fui um defensor do acordo, mas, do jeito que ficou, ele perdeu relevância prática. As barreiras anulam qualquer ganho real”, diz.

A preocupação maior, contudo, vai além da Europa. Crescer produção sem ampliar mercados é, na visão de Rodrigues, um erro clássico.

Ele recorre ao exemplo do café nas décadas de 1950 e 1960, quando a superoferta derrubou preços abaixo do custo. Hoje, com cerca de 47 milhões de hectares de soja, a dependência de poucos compradores amplia o risco. Se a China avançar com produção em larga escala em outras regiões, como a África, o excedente brasileiro pode pressionar preços de forma estrutural.

O tripé que levou o Brasil ao topo começa a se desgastar

alffoto/GettyimagesPeão com o gado de corte em área de pastagem

O caminho que levou o Brasil à condição de potência agrícola, relembra Rodrigues, apoiou-se em três pilares internos (a tecnologia, o empreendedorismo e as políticas públicas) e em um fator externo decisivo: a expansão da demanda asiática.

A tropicalização da agricultura, liderada pela Embrapa, mudou a base produtiva do país. Desde 1990, a área plantada com grãos mais que dobrou, enquanto a produção avançou mais de cinco vezes.

Para sustentar o próximo ciclo, os gargalos são claros. A pesquisa científica enfrenta restrições orçamentárias, a logística segue deficiente, sobretudo em armazenagem e acesso a portos, e o seguro rural cobre menos de 10% da área plantada. Segundo a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) o porcentual não deve ter passado de 2,3% da área plantada no País.

“Sem seguro não há estabilidade. Sem estabilidade não há crédito. E sem crédito não há tecnologia”, resume.

Cooperativismo surge como eixo de inclusão e crédito

A organização produtiva aparece como peça central dessa equação. Dos cerca de 5 milhões de estabelecimentos rurais no país, apenas 1 milhão opera plenamente integrado ao mercado tecnológico. Para Rodrigues, o cooperativismo é a ponte mais eficiente para incluir os demais, reduzir custos financeiros e diluir riscos.

Hoje, as cooperativas respondem por mais da metade da produção agropecuária nacional, com predominância de pequenos produtores.

“Em países como Holanda e França, o crédito cooperativo domina o sistema. No Brasil, ainda é recente, mas é a alternativa mais saudável diante dos juros elevados dos bancos tradicionais”, afirma.

Sustentabilidade vira disputa comercial no tabuleiro global

GettyimagesProdução de soja com áreas de preservação ambiental ao fundo

Na agenda ambiental, o ex-ministro rejeita a associação automática entre produção agropecuária e desmatamento. Para ele, o problema central é a ilegalidade.

“Mais de 90% do desmatamento é ilegal. Quem faz isso é criminoso. O erro é permitir que isso seja usado para atacar todo o setor”, diz.

A disputa ambiental, avalia, seguirá sendo instrumento comercial, e o desafio do Brasil é combater o crime com rigor e comunicar de forma clara que o produtor que cumpre a lei faz parte da solução.

Ao olhar o tabuleiro global, Rodrigues avalia que o Brasil ainda não assumiu plenamente o protagonismo político compatível com sua relevância agrícola.

Em um mundo pressionado por insegurança alimentar, transição energética, desigualdade social e mudanças climáticas, a agricultura tropical ocupa posição estratégica.

“O mundo precisa de comida. E comida é paz. Sem alimento, não há democracia”, afirma. Para ele, a missão brasileira transcende o campo. “Agricultura é vida. Falta ao país compreender que essa é uma missão estratégica.”

Fonte: https://forbes.com.br/forbesagro/2026/01/2026-testa-a-sobrevivencia-economica-do-produtor-rural-alerta-roberto-rodrigues/